terça-feira, outubro 18, 2011 4 comentários

Segunda Sessão de Quimio

Oi pessoal!
Ontem fiz minha segunda sessão de quimio e foi bem tranquila, assim como a primeira, mas eu dormi a maior parte do tempo. Aquele anti-alérgico derruba.
Adivinha qual a primeira coisa que a médica e as enfermeiras falaram para mim??? Sobre meu cabelo novo. Todos só conseguem reparar nele, mas fazer o que? Tenho que me acostumar com essa cabeleira durante alguns meses. De resto, aquela coisa um pouco desagradável, gente chegando de muleta, de cadeira de rodas, pesando menos de 40 quilos e algumas pessoas contando histórias de 10 anos de quimio (acho que é mentira!! só para constar), mas também, muita gente jovem meio perdida naquele lugar, outras mulheres de peruca ou lenço.
Enfim... qualquer um pode ter câncer né?? Infelizmente, não é uma coisa que se pode prever.
O que importa é que nesse momento, tudo está bem e eu acho que poderei continuar levando uma vida normal, incluindo um pouco de trabalho, encontros com as amigas, passeios com o namorado, reuniões familiares.
Meu próximo desafio é tentar descobrir como fazer penteados variados na peruca, porque eu não gosto de cabelo no rosto e continuar me mantendo saudável, com cílios e sobrancelhas, que ainda não caíram totalmente, mas já deram uma reduzida.

Para finalizar, vou postar um vídeo do Gianecchini maravilhoso. Para mim, tudo o que ele diz faz cem por cento de sentido.

Bom, por hoje é só.
A luta continua. Para mim, para o Giane e para milhares de outras pessoas.
Beijos, 
Thai
sexta-feira, outubro 14, 2011 6 comentários

Post da Mah I

Hoje a estrela do dia é minha amiga amada, responsável pela existência desse blog.
Sem as aptidões internéticas dela, eu não teria me animado para começar. É uma das pessoas que me traz  força e as lembranças dos nossos momentos juntas, me faz pensar que vale a pena seguir em frente. Por essa razão, tomei a liberdade de postar uma fotinho nossa da vida real para ilustrar o texto dela.
Mayara de Paula, só tenho que te agradecer por tudo. 
Te amo, amiga.

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
É com essa frase clichê que eu - como mera colaboradora do blog hahaha - começo meu post. 
Nao vou escrever aqui sob o ângulo da paciente, que eu não sou. 
Tampouco tentar descrever as sensações/pensamentos da minha amiga, 
afinal essa tarefa ela já está desempenhando (magistralmente). 
Eu sou a pessoa que está do outro lado.


Cheguei por último entre elas, falando devagar (já mudei), com o coração pela metade, um pedacinho aqui e outro no interior. 
Fui ficando. Conhecendo. Me apegando. E sem avisar, o que antes era meramente informal, se tornou essencial. 
Minhas melhores amigas. No plural mesmo. Cada uma com sua personalidade distinta e ímpar.
Eu sou daqueles que acreditam que amor é pra ser distribuído! Tem espaço pra elas aqui.


Daí que os dias iam passando, sem muitos sobressaltos. As gargalhadas ganhavam disparado das lágrimas. 
O score estava patético pro time da tristeza.
Não que a vidinha da gente fosse perfeita. Não era. Jamais será (human beings!).
Mas pra mim, o placar estava ótimo. Pra tudo se dava um jeitinho, um jantarzinho, um vinhozinho...
Até que entre uma aula e outra (sou vestibulanda novamente) meu celular tocou e eu, que sou do time das mensagens de texto, 
pensei: "Mas porque a Flor tá me ligando???"
Quando eu atendi, notei que a voz dela estava diferente. Era uma tom que eu nunca tinha ouvido. 
Ela disse: "Amiga, eu tenho uma notícia pra te dar. Fica calma, tá?"
Pois é. Eu não fiquei calma.


Eu não fiquei calma por muitos dias.
Os estágios que se sucederam seriam até engraçados se não estivessem acontecendo comigo e com a minha amiga.
Primeiro eu pensei: "Mas que brincadeira de mau gosto é essa?"
Na mesma hora amaldiçoei a pessoa que mora lá em cima e fiquei pensando em quem seria o responsável pelo setor das notícias-sem-noção.
Nesse momento, câncer era só uma palavra, substantivo masculino, singular (Alô, vestibular!).
Depois, a frase começou a fazer looping no meu cérebro: "A Thai está com câncer. A Thai está com câncer.³"
Assim, infinitas vezes. 
Aí começou a fazer sentido. E aí eu comecei a chorar.
Pedi licença e saí da sala de aula. Fui pra casa me permitir chorar todas as lágrimas que eu quisesse.
E gritar pro mundo o quando ele era injusto, sujo, cruel.


Depois eu fui tentar barganhar com Deus. 
Ofereci umas coisas pra ver se ele devolvia a saúde da minha amiga, mas até agora não obtive resposta. 
E as propostas até que eram boas...
Chorei de novo, mas lágrimas não amenizam angústia.
Essa parte dura um tempão. Eu não achava ninguém pra por a culpa!
Até que eu finalmente entendi que certas coisas simplesmente acontecem e não 
vai haver um culpado, por mais que eu procure, não existe. São as tais fatalidades da vida.
Quem inventou isso? Eu mato! (Maturidade, beijos.)

Quando eu me senti forte, veio o outro estágio "Meu Deus, o que eu vou dizer dizer pra ela?"
Essa parte é curiosa. Ao mesmo tempo em que é uma das suas melhores amigas, a de sempre, que você já viu de pijamas, sem maquiagem, dividiu o copo de coca-cola, a tela do notebook, o pedaço do travesseiro... Dá um certo receio, um medo de falar algo errado. 
É a urgência em confortar, mas ela vem de forma desajeitada.
A situação é nova pra todo mundo. E aí nos enchemos de dedos, pensamentos de mais, ações de menos.
Eu mandei uma mensagem tímida, clichê, com umas frases prontas, que depois de enviada eu pensei
"Sua anta! Precisava ter sido tão brega assim?"
Não sei se foi pouco, não sei se acalentou, não sei se faltou presença física.
E nem quero que haja uma "próxima vez" pra eu testar um método diferente.
Eu sei que foi o que de melhor sobrou em mim, foi o que de mais carinhoso eu tinha naquela hora.


Depois de alguns dias, nós nos encontramos.
A palavra "câncer" parecia um fantasma, um mau agouro. Era como se fosse uma fumaça que estava ali nos espreitando. 
Ninguém queria falar sobre isso abertamente, mas era preciso exorcizar o fantasma.
Afinal, se aquele assunto fosse tabu entre nós, a amizade não teria sentido algum.
E entre assuntos banais, finalmente conseguimos falar sobre a doença. De forma natural, sem dramas, sem exageros. 


Eu admirei a minha amiga. Eu achei lindo a forma como ela estava conduzindo tudo.
A força, a determinação, a coragem. Quando ela disse que havia escolhido viver, 
eu acreditei que tudo ia ficar bem. É nisso que eu vou continuar acreditando.
A brutalidade do tratamento, a crueldade da doença, os efeitos colaterais, nada disso vai transpassar o escudo. 
Estamos todas à postos pra qualquer batalha. Sobretudo ela.


O time da tristeza não conseguiu virar o placar. Saber rir de si mesmo, enxergar as situações com todas
as suas nuances, ser multifacetada, isso nós fazemos bem. É uma virtude.
Eu acredito muito que a vida nos dá oportunidade de escolher àqueles que queremos por perto.
São pessoas que acrescentam, nos somam, pra no final termos histórias bonitas pra contar.
Enquanto isso, a vida começa a cada instante e não se deve olhar pra trás nem se lamentar.
É lutar com as armas que se tem, descer pro playground e brincar sem medo de ralar o joelho.


Minha amiga é dessas.
E eu encontrei o meu lugar, junto delas. 


Amiga, você é meu orgulho, meu exemplo, um dos motivos pelo qual sorrio. 
"Se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz."

Te amo muito.

Mayara
quarta-feira, outubro 12, 2011 3 comentários

Mimada

É difícil encontrar as pessoas agora que sou "peruquenta". 
Pelo menos em um primeiro momento, porque todo mundo fica analisando meu novo visual.
Já passei pelo crivo da minha família toda e do meu amor.
Amanhã é dia de encarar o pessoal do escritório e eu estou morrendo de frio na barriga. Ninguém ficaria analisando a minha cara nova se o cabelo estivesse, de fato, grudado na minha cabeça pelos fios e não por uma rede, mas... é a vida.

Estou mais tranquila em relação à minha nova aparência, afinal não poderia sofrer para sempre.
Essa noite sonhei que não tinha raspado a cabeça e que estava na rua e meu cabelo tinha caído mais e estava cheio de falhas, eu ficava tentando esconder. Um desastre. Então, conclui que a minha decisão foi a melhor. O que mais me desesperou foi ver a queda. Acreditem, não é fácil.
Cada vez que eu me olho no espelho de lenço eu penso assim: "Nossa, fulana não ia aguentar ter câncer... ia estar deprimida demais!", "Afe, se fosse com tal pessoa, dúvido que ela conseguiria sair de casa", "Ih, se cicrana ficasse careca morreria. Mimada demais!" e  depois eu penso: quem diria que eu ia aguentar? Mimada demais eu sempre fui. Sempre pareci fraca demais também, mas eu não sou nada disso. 
Descobri uma força inacreditável. 
Meu pai me viu dar um sorriso ontem e deu um pulo no meu pescoço dizendo que estava muito feliz porque eu estava rindo de novo. Mas gente, calma lá, eu fiquei dois dias sem sorrir, e só. Foi meu período de luto, agora tudo tem que voltar aos eixos.
A segunda vez que eu me vi no espelho sem cabelo, com pouca sobrancelha e pouco cílios, sabe o que eu fiz?? Eu ri, pensando se eu parecia mais com um judeu no campo de concentração ou uma mutação genética sem pêlos. 
Eu não posso chorar para sempre né??? Então, eu tive que rir. Afinal, câncer não é para os fracos.
Sendo assim, vamos em frente porque a luta continua!

Beijos,
Thai.
segunda-feira, outubro 10, 2011 9 comentários

Post sem título

Meu cabelo se foi.
Começou a cair e não parou mais. Junto com ele foram muitas coisas: minha tranquilidade em relação ao tratamento, meus outros pêlos do corpo todo, minha paz interior. E chegaram coisas novas: medo, dor, nó na garganta.
Começou a cair de pouquinho em pouquinho. Não tive nenhuma dorzinho no couro cabeludo, veio sem anúncio. Eu estava aguentando ver a queda dos fios. De repente, caiu um chumaço e eu me desesperei completamente. Aliás, ainda estou desesperada.
Durante todo o tratamento eu usei uma técnica simples: cada momento difícil, eu pensava nos melhores momentos da minha vida (os que já passaram e os que eu sonho com o dia que virão). Tomografia: Lucas e Giulia brincando na piscina. Dieta da Urografia: carinha de nervoso no Nicolas bebê. Anestesia: a felicicidade dos meus pais na minha formatura. Agulhada da quimio: primeiro beijo no meu namorado.
Mas dessa vez não consigo pensar em nenhum bom momento capaz de conter a minha tristeza. A cada fio de cabelo caindo da minha cabeça foi como se apagasse um momento de felicidade da minha memória.
Mesmo sabendo que esse dia iria chegar e a queda de cabelo ser uma tragédia anunciada, isso não significa que o sofrimento está sendo menor. A previsão da tragédia não redimi a dor que ela traz.
A cada tesourada nas minhas mechas loiras, eu sentia como se fosse uma tesourada dentro do meu coração.
Hoje, 10 de outubro de 2011 foi, sem dúvidas, o dia mais triste de toda a minha vida.
sexta-feira, outubro 07, 2011 2 comentários

Post da mamãe I.

Hoje resolvi fazer uma coisa diferente!
Resolvi pedir para uma pessoa escrever aqui. A primeira de muitas outras pessoas que vão escrever aqui, porque minha mente não tem tanto espaço assim para criativade. Alô, Ctrl + C, Crtl + V!
E quem inaugura esse espaço é minha mãe linda e fofa. (lágrimas!).

 
"Hoje resolvi postar pela primeira vez.
Quero deixar registrado aqui o quanto corajosa, batalhadora e alto astral esta menina é.
Sempre a vi muito frágil, criada cheia de dengos,mimos e vontades, me surpreendi com a força 
interior desta guerreira, ela nos deu uma lição de fé, força e valentia.
Tem enfrentado cada momento, cada fase do seu tratamento com tamanha força e coragem que nos fez ver o quanto é gigantesca.
Aprendo todos os dias e me apóio na sua segurança para superar junto, cada nova etapa.
Por trás desta fragilidade, existe uma guerreira!
Thai, desde que Deus me presenteou com aquele bebê lindo, loiríssimo, grandes olhos azuis (que depois ficaram verdes), eu sabia que seríamos parceiras para sempre, sabia que teria grandes momentos a teu lado, sabia que nossa amizade e nosso amor superaria qualquer problema...não estava enganada, tenho certeza que estaremos juntas sempre, em qualquer situação e em todos os momentos de nossas vidas, nos apoiando e cuidando uma da outra até eu ficar bem velhinha e virar uma filha (igual a vó Amélia) precisando dos teus cuidados.
Estou com vc agora e sempre, minha guerreira!
Agradeço todos os dias a Deus pelos amigos  maravilhosos que nos dão tanta força e pela família linda que temos e tem nos apoiado sempre.
A sua luta é a NOSSA luta, juntos e com as forças unidas JÁ VENCEMOS!"
quinta-feira, outubro 06, 2011 2 comentários

Steve Jobs

Ontem morreu um dos maiores gênios da humanidade. E adivinhem qual foi a causa da morte? Câncer.
E a primeira coisa que me veio na cabeça foi a injustiça de uma doença maldita dessas levar uma pessoa tão importante para a evolução do mundo, mas depois esqueci isso e comecei a ver que, na verdade, ele se foi, com 56 anos, deixando um legado tão incrível e icomensurável que ele só podia ser uma alma mais evoluída que todas as outras que estão vagando aqui na Terra.

Ele poderia ter morrido em um acidente aéreo, naufrágeo, ataque cardíaco, febre tifóide, pneumonia, hiv ou qualquer outra coisa, mas não, foi de câncer que ele morreu.
Não tem jeito, não existe como pensar em câncer, sem pensar em morte.
Parafraseando o mestre: "Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá".
Porém, Steve Jobs foi uma exceção, ele passou nessa vida, arrasou, fez a parte dele e revolucionou a humanidade.
Meu caso é completamente diferente. Eu ainda não tive tempo de fazer nada disso, por isso, não tenho tempo de pensar besteira. Meu caso é diferente do dele!
Eu ainda não revolucionei o mundo. Ainda! 
segunda-feira, outubro 03, 2011 3 comentários

A história dos outros.

Segunda-feira agitada.
Uma semana depois da primeira sessão da quimio e hoje eu fui providenciar meus cabelos novos (estou com uma certa raivinha do nome "peruca").
A gente sempre tem que contar um pouco da nossa história para as pessoas, mas tem muita gente que quer contar a história da prima, da vizinha, da colega, da irmã, da amiga da amiga, e eu escuto todas, mas algumas eu odeio ouvir. Outras me ajudam a lembrar que eu não estou sozinha nesse barco furado.

Hoje eu ouvi história de uma senhora que teve o primeiro câncer há 20 anos atrás e ele voltou várias vezes (odiei!). Ouvi a história de uma menina que raspou o cabelo no salão lotado em um sábado e TODOS CHORARAM (segurei o choro!). Ouvi história de uma menina que tacou tanta química no cabelo que o cabelo caiu e ela teve que raspar por pura burrice e depois colocar mega hair (dei graças a Deus ter nascido mais esperta que essa).
Mas principalmente, eu ouvi uma história da boca de uma personagem real. Tão real quanto eu.
Enquanto eu estava definindo a minha própria peruca (argh!), ela chegou para raspar o cabelo. Na verdade, ela ia cortar o cabelo e salvar para fazer a peruca dela, mas enfim, o dia dela ficar careca, triste e deprimida era hoje.
E nós conversamos uns dez minutos e eu tive tempo de descobrir que ela é uma professora universitária com emprego "full time" e que descobriu o câncer de mama dia 29 de agosto (dez dias depois de mim) e já fez três sessões de quimio. Mas ela faz uma por semana e ainda faltam nove semanais e mais não sei quantas com espaçamento de 21 dias antes de ela (talvez) poder operar.
Os exames iniciais dela não foram bons e ela vai precisar de um medicamento mais agressivo para ver se melhora o quadro. Já está usando um catéter e disse que a medicação é super ardida para entrar.
Dai que eu não fiquei triste por ela, porque ela não é triste por ela. Ela fala da própria história sem embargar a voz e levou uma câmera fotográfica para registrar o momento da carequice chegando.
Antes de ir embora eu desejei "Boa sorte!", porque não tem mais nada que se possa falar para uma pessoa como ela. Ela só precisa de sorte, porque força ela já tem.
Depois, eu marquei com a minha cabelereira de ir em casa tirar meus fios quando chegar a minha hora de perder eles, coloquei um (dos muitos) lenço novo na bolsa e voltei a trabalhar, porque tudo o que eu quero é isso. Viver minha vida.
 
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